Uma comparação direta entre Jesus Cristo e Muhammad no quesito “violência” costuma partir de um erro básico de categoria: ignora que ambos ocupam papéis radicalmente distintos em suas respectivas tradições. Nos evangelhos, Jesus aparece como pregador itinerante, sem função estatal ou comando militar, atuando sob dominação romana e propondo uma ética religiosa voltada à transformação moral individual e comunitária. Já Muhammad, além de profeta, foi também líder político e chefe de uma comunidade em formação na Península Arábica do século VII, exercendo funções de governo, arbitragem jurídica e, em certos contextos, liderança militar — algo comparável a figuras político-religiosas de seu tempo.
Comparar suas atitudes como se partissem das mesmas condições históricas e institucionais é metodologicamente equivocado pelo simples fato de que Jesus pregava num enorme império centralizado, unificado, com leis e costumes que permitiam ele ser este pregador, e ainda que seus seguidores e enfrentassem perseguição nos primeiros anos, sua situação era totalmente diferente politicamente.
Muhammad nasceu e viveu numa Arábia caótica, dividida por tribos beligerantes, cercado pelos impérios também beligerantes em choque na Ásia Ocidental (Sassânidas e Bizantinos), onde quem quer que fosse defender qualquer crença ou comunidade precisava de ao menos alguns homens armados para não ter sua comunidade aniquilada em poucos anos.
Do ponto de vista histórico, a violência associada a Muhammad ocorre em um contexto de conflito tribal e consolidação política, típico da Antiguidade tardia, enquanto os relatos sobre Jesus não incluem participação em guerras porque ele não liderou um corpo político soberano. Como observa Karen Armstrong, avaliar figuras religiosas fora de seus contextos históricos produz distorções, especialmente quando se aplica seletivamente critérios modernos. Assim, a ausência de envolvimento militar de Jesus não decorre necessariamente de uma “superioridade ética comparativa”, mas de sua posição social e histórica distinta.
Há ainda um ponto teológico frequentemente ignorado por críticos cristãos: dentro da própria doutrina cristã tradicional, especialmente nas vertentes trinitárias, Jesus é identificado como Deus encarnado. Isso implica que o mesmo Deus que, segundo o Antigo Testamento, ordena ou permite atos de violência coletiva (incluindo guerras e punições severas) é também identificado com Jesus. Portanto, separar radicalmente “Jesus pacífico” de “Deus violento do Antigo Testamento” pode gerar uma tensão interna na própria teologia cristã.
Nesse sentido, há diversos episódios no Antigo Testamento atribuídos à vontade divina que envolvem violência, frequentemente ignorados nesse tipo de comparação simplista. Entre eles: o dilúvio em Gênesis; a destruição de Sodoma e Gomorra; as pragas do Egito e a morte dos primogênitos; a ordem de destruição dos cananeus; a queda de Jericó; o extermínio dos amalequitas; as guerras de conquista sob Josué; a punição de Israel com pragas; a morte de Uzá ao tocar a arca; o envio de ursos contra jovens. Esses episódios fazem parte da narrativa bíblica e, na teologia cristã clássica, estão vinculados à ação divina.
Assim, a comparação simplista entre Jesus e Muhammad ignora três fatores fundamentais: a diferença de papéis históricos (um líder espiritual sem Estado versus um profeta-estadista); o contexto político e social em que cada um atuou; e as próprias implicações teológicas do cristianismo, que identificam Jesus com o mesmo Deus que, segundo suas escrituras, ordenou atos de violência no passado. Uma análise consistente, portanto, exige abandonar paralelos superficiais e considerar as categorias históricas, políticas e teológicas de forma mais rigorosa.
Referências:
ARMSTRONG, Karen. Muhammad: A Prophet for Our Time. HarperOne, 2007.
CROSSAN, John Dominic. The Historical Jesus: The Life of a Mediterranean Jewish Peasant. HarperOne, 2010.
PETERS, F. E. Muhammad and the Origins of Islam. State Univ of New York Press, 1994.
WATT, W. Montgomery. Muhammad at Medina. Oxford University Press, 1956.
WRIGHT, N. T. How God Became King: The Forgotten Story of the Gospels. HarperOne, 2016.
Por Mansur Peixoto História islâmica